quinta-feira, 31 de outubro de 2013

SÓCRATES E JESUS


Crítão é um dos diálogos escritos pelo filósofo grego Platão e nele, Crítão, tenta convencer Sócrates, de quem é discípulo, a fugir da execução de sua sentença de morte. Sócrates discorda e reafirma sentir que deve seguir a razão. Nele podemos notar uma notável semelhança com os ensinamentos cristãos de busca da Verdade e de não fazer o mal.

Tanto Sócrates quanto Jesus afirmam que acima do que as pessoas acham, devemos buscar a verdade, porque só ela nos traz a liberdade.

"Sócrates- Podemos, porém, acaso viver depois de arruinar aquela parte que a injustiça danifica e a justiça beneficia? Ou considerarmos de menos valor que o corpo, aquela parte de nosso ser, seja qual for, com que se relaciona a injustiça e a justiça?

Critão- De modo nenhum.

Sócrates- De maior valor, então?

Critão- Muito maior.

Sócrates- Logo, meu excelente amigo, não é absolutamente com o que dirá de nós a multidão que nos devemos preocupar, mas com o que dirá a autoridade em matéria de justiça e injustiça, a única, a Verdade em si. Assim sendo, para começar, não apontas o bom caminho quando nos prescreves que nos inquietemos com o pensamento da multidão a respeito do justo, do belo, do bem e de seus contrários. A multidão, no entanto, dirá alguém, é bem capaz de nos matar."

Para Jesus Cristo a verdade libertaria o homem:

"E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará ."(João 8:32)

Tanto Sócrates quanto Jesus viam que só o conhecimento libertaria o homem do hedonismo e outras fontes de prazeres ilusórios, mostrando ao homem que só a justiça realmente poderia nos traze a felicidade e a consciência tranquila. Devemos buscar levar ua vida pautada no bem independente do que as pessoas acham porque o objetivo da busca do conhecimento não é se pautar pelos que as pessoas acham é certo, mas realizar aquilo que é certo fazer.


Veremos agora, duas jóias do pensamento humano, uma é um diálogo de Sócrates com Critão e outro de ensinamentos de Jesus:

"Sócrates- Asseveramos que não se deve cometer injustiça voluntária em caso nenhum, ou que em alguns casos se deve, e noutros não? Ou que de modo algum é bom nem honroso cometê-la, como tantas vezes no passado conviemos? e é o que acabamos de repetir. Porventura, todas aquelas nossas convenções de antes se entornaram nestes poucos dias e, durante tanto tempo, Critão, velhos como somos, em nossos graves entretenimentos não nos demos conta de que nada diferíamos das crianças? Ou, sem dúvida alguma é como dizíamos, quer o admita a multidão, quer não? Mais: ainda que tenhamos de experimentar momentos quer ainda mais dolorosos, quer mais suaves, o procedimento injusto, em qualquer hipóteses, não é sempre, para quem o tem, um mal e uma vergonha? Afirmamos isso ou não?

Critão- Afirmamos.

Sócrates- Logo, jamais se deve proceder contra a justiça.

Critão- Jamais, por certo.

Sócrates- Nem mesmo retribuir a injustiça com a injustiça, como pensa a multidão, pois o procedimento injusto é sempre inadmissível.

Critão- Parece que não.

Sócrates- E daí? Devemos praticar maldades ou não, Critão?

Critão- Não devemos, sem dúvida, Sócrates.

Sócrates- Adiante. Retribuir o mal que nos fazem é justo, como diz a multidão, ou injusto?

Critão- Absolutamente injusto.

Sócrates- Sim, porque entre fazer mal a uma pessoa e cometer uma injustiça, não há diferença nenhuma.

Critão- Dizes a verdade.

Sócrates- Em suma, não devemos retribuir a injustiça, nem fazer mal a pessoa alguma, seja qual for o mal que ela nos cause. Cautela, porém, Critão, ao admitires esses princípios, não o faças em contradição com o teu pensamento, pois sei que essa opinião é e será de alguns poucos. Entre os que a adotam e os que a repelem não existe um ânimo comum; fatalmente se a quererão mal uns aos outros, ao verem os propósitos uns dos outros. Portanto, considera muito bem tu se comungas a minha opinião, se concordas comigo e se nossa deliberação partirá do princípio de que jamais é acertado cometer injustiça, retribuí-la, vingar pelo mal que fazemos o mal que nos fazem, ou se diverges e não co-participas do princípio. Quanto a mim, essa é opinião minha antiga, que ainda agora mantenho. Tu, porém, se tens outro sentir, fala, dá-me a conhecer; se perseveras no de outrora, presta atenção ao que aí decorre."

Vemos igualmente o perdão e a nao vingança igualmente nos ensinamentos de Jesus.

O Perdão aos inimigos aparece como uma alternativa ao "olho por olho":

“Tendes ouvido que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te dá na face direita, volta-lhe também a outra; ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e quem te obriga a andar mil passos, vai com ele dois mil. Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes." (Mateus 5:38-42)

No Evangelho de São Lucas, vemos como parte de seu mandamento de ame seus inimigos, Jesus disse:

“Digo, porém, a vós que me ouvis: Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos insultam. Ao que te bate numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te tira a capa, não lhe negues a túnica. Dá a todo o que te pede; e ao que tira o que é teu, não lho reclames. Assim como quereis que vos façam os homens, assim fazei vós também a eles." (Lucas 6:27-31)

O que Jesus e Sócrates nos ensinaram é que nos tornamos injustos mesmo quando retribuímos uma injustiça. Fazer um mal, mesmo que seja retribuindo o mal, não retira de maneira alguma o caráter condenável do seu ato e você se torna mau assim como aquele que te fez mal. Seria uma vitória  daquele que te fez mal sobre você, porque ele o mudou e o tornou igual a ele, injusto. Além disso tudo realizar o mal porque recebeu o mal não alimenta a paz, mas o conflito e tanto Sócrates enquanto Jesus jamais apoiaram a solução de tudo pela violência.

Fonte:

- A Biblia Sagrada/ Tradução, Itrodução e Notas: Ivo Stornilo, Euclides Balancin/ 19a Edição: 1996/ Editora Paulus

- Platão. Diálogos. Tradução: Carlos Alberto Nunes. Editora: Melhoramentos. São Paulo. 1970

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